感じる

Sinto nossa falta. Era bom deitar, ficar se olhando com cara de descoberta, você me puxando sempre pra perto e sussurrando aquela música.
Sinto sua falta. De quando você sorria com os olhos e deixava o mundo em silêncio só pra me ouvir falar um bando de coisa qualquer. Do passeio de carro à meia-noite, com sabor de desvario, feito pra matar a saudade inteira. Da noite em que tudo saiu como você não tinha planejado, a melhor de todas, porque você andou pensando e achou que a gente não devia ser nada um pro outro. Do Michael Bublé de fundo e o gosto de novidade, as estrelas na parede.
Sinto. Sinto muito pelo peso da cobrança. Pelo descontrole e o destempero. Se grudei e custei a largar, se não entendi e teimei. Se impliquei, insisti, irritei. Sinto muito.
Mas sinto. Entenda que esse gosto de ineditismo me encanta e sua presença e carinho embriagam, viciam. Que não importa o lugar, importa você. Que meus olhos não têm outro destino que não os seus, tampouco minhas mãos e as batidas (des)compassadas daqui de dentro. Que ouvir um “gosto bastante de você” é ter uma manhã azul de domingo acontecendo toda vez aqui dentro, e por isso mesmo eu te pergunto e peço tanto pra falar mais (tenta entender, lindo). Que quero estar ao seu lado em dias normais e estranhos, fáceis e difíceis, de mal ou bem-estar.
Então, lindo, saiba. Saiba que meu bem-querer é teimoso o suficiente pra durar infinitos invernos, mas requer algumas doses de paciência e cuidado. E isso é simples: basta que você me encaixe naquele vão do seu pescoço e, juntos, saiamos para desbravar a vida. Mais nada.

Di Você

Mika – Grace Kelly

Já passei por muitas pessoas e certamente passarei por outras tantas, mas raras foram (e serão) aquelas que chamo “amigo”. Sorte a minha você ser uma delas. Tínhamos tudo para ser nada mais que meros desconhecidos, pessoas que se cumprimentaram uma vez para nunca mais. Ainda bem que o nunca resolveu tirar umas férias e passou bem longe de nós.

Agora nossas siglas são outras e os DDDs também. São muitos os minutos e quilômetros a percorrer caso queiramos tomar um café ou fazer o desabafo da semana. Mas nada disso impede o crescimento dessa conexão inexplicável que só a gente (não) entende que tem. A mesma conexão queme faz saber exatamente o tamanho o “trem” que resolveu fazer uma ponta no seu show.

Tem sempre aquela hora em que a gente fica achando tudo mais sem graça do que as piadas daquele programa do cara que senta há 317 anos no mesmo banco. Chega, então, um vendaval e muda a ordem de tudo, confunde, entorpece, transforma, enlouquece. A gente começa achando bom, depois já não sabe mais, daí acha pior que jiló e, por fim, fica sem saber. Chato? Pra cacete. Mas, acredite: é uma das melhores coisas que vai te acontecer, desde que você tire proveito dela.

Pra ajudar, o coração resolve ensaiar a bateria pra Sapucaí 2013. O alvo, legal que só ele, te leva do céu ao inferno mais rápido que aquele trem do Japão. Confunde, machuca,  enrola, e o resultado é você mais perdido que dignidade de piriguete. Chato pra cacete, né? Mas passa. E resolve. E acalma. Pode não ser daqui a 3 minutos ou 3 semanas, mas na hora certa, passa. E acredite: você vai rir de tudo e ver como isso te ajudou a achar seu equilíbrio, sua calmaria, sua tarde na rede.

As razões para desistir são muitas e a vontade é infinita, mas te digo uma coisa, meu amigo: persista. Lute. Sambe. Sue. Porque, não importa o que aconteça, pessoas puras como você sempre sempre conquistam o felizes-para-sempre. E o seu está a caminho, não tenha dúvida. E vem de nave, muito bem pilotado.

Um beijo grande.

Sossego

The XX – Islands

Tinha a sensação de estar vivendo num filme de Chaplin, mas sem a comédia. Uma canção de Elis ou outra de Chico também caíam bem: sentia-se cinza, cru, mono. Seus trajes ultrapassavam o básico, sem enfeite algum para dar uma pitada de alegria. Nada, exceto por aqueles misteriosos óculos escuros de grossas lentes.

Através deles, o mundo lhe parecia outro. Perdia-se em devaneios, alimentava ilusões, romanceava casos e fazia sua realidade. Os poucos sapos que beijou, transformou todos em príncipes. Via-se dona de serenatas que nunca soaram em sua janela, buquês de flores que murcharam na floricultura, surpresas que não chegaram a ser descobertas ou pequenas gentilezas jamais feitas. Bateu tanto a cabeça e esmurrou tantas vezes as mesmas facas que decidiu declarar derrota: livrou-se dos óculos, fechou os olhos e trancou o peito.

Até que sentiu um afago. Tentou espiar, mas se fora tão rápido quanto viera.  O gesto foi acontecendo mais vezes, em outros dias sem graça, tempero ou cor, e ela foi se acostumando a sua presença. Acostumou-se tanto que permitiu que o autor lhe abrisse os olhos, e então ela viu.

Viu como seus óculos escondiam a nitidez, bloqueavam a claridade, empalideciam as cores, mascaravam os sabores e ofuscavam os aromas. Descobriu que a realidade superava qualquer ilusão em voltagem máxima, bastava permiti-lo e permitir-se abrir os olhos.

Os afagos continuam, dessa vez em busca da fechadura que protege a fortaleza que ergueu em torno de si própria. Ele é paciente, decide ficar mais um pouco e continuar a procura, porque entende que não há pressa quando finalmente encontramos aquilo que nem sabíamos que procurávamos. Ele entende. E agora ela também.

N. Palavras

The Beatles – All You Need Is Love

Amiga querida,

Que coisa boa te rever depois de tanto tempo e perceber que a erva-daninha da distância passou longe de nós. Que gostosa a sensação de voltar aos dias de troca despreocupada de confidências e riso fácil. Senti (e sinto sempre) sua falta. Só teve uma pitada de limão nessa história toda, que me fez resolver escrever para você: perceber a sua angústia.

Sim, a falta de rumo preocupa. A indecisão dá um puta medo e ter crise de identidade é chato pra cacete. Eu sei, eu também não gosto, mas passa. Você sobrevive e acaba achando um caminho que te faz entender tudo que deu errado e ficar com aquela sensação de “então era isso”.

Tem sempre alguém perguntando o que estamos fazendo da vida, como vemos nossa vida daqui a 5 anos, quais os planos para futuros de todos os prazos e tudo mais. Quer saber? Não tenha vergonha de responder que não faz a mínima, porque essa pessoa provavelmente já esteve na mesma. E caso não, então imagine o tédio que deve ser saber tudo que acontecerá na sua vida no auge dos seus 20 e poucos anos.

Encare seu reflexo no espelho com um pouco mais de confiança, explore suas fortalezas, enfrente as fraquezas e concentre-se em achar uma solução para o que te aflige: antes de agir, REAJA. Levante a cabeça e tenha um pouco de fé, porque existe algo brilhante reservado para você, não tenha dúvida. E conta comigo. Sempre.

Um beijo.

De volta

“Back to Black”, Amy Winehouse

Sinto vergonha. E não é pouca, quem dera fosse: tem o tamanho exato de quatro meses de lápis batendo em mesas, olhos contemplando espaços em branco, cursores piscando e dedos frustrados.

São quatro meses faltando à terapia sem nem ligar para dar um bom motivo. Quatro meses de garganta fechada, peito apertado, abstinência de palavras e carência de parágrafos.

Quatro meses. Quatro meses do mais puro bloqueio da criação, do sentimento, da efeverscência do sangue e da inquietude das ideias. Quatro meses do vácuo, do nada, do menos um. Quatro meses.

Mas, voltei. Esse é (ou parece ser) o retorno das minhas férias forçadas, do meu recesso nada planejado. Cheguei, Clarice, tô aqui. E, dessa vez, prometo que não vou me deixar escapar tão cedo. Dessa vez, voltei.

Estranheza

Canção Pra Não Voltar – A Banda Mais Bonita da Cidade

Esses dias têm andado estranhos. Já não lembro de você com tanta frequência, tampouco o desejo da tua presença tem me feito queimar. São Paulo deixou de ser um dia nublado e de garoa fina, e seu timbre parou de me acordar sorrindo no meio da noite. É, que estranho.

Meus impulsos reivindicaram seu merecido descanso e o mel, quem diria, petrificou. Já fui avisada que o bumbo está em manutenção por tempo indeterminado, portanto as pernas estão em estado constante de alerta com ordens claras para não deixar que nada sequer ouse suspirar ou tremer. Realmente, estranho.

Até tive vontade de te ligar rindo de uma piada nossa qualquer, mas acabou que ela morreu na metade do percurso até o telefone. Parecido com aquele sorriso de canto que insistia em dar as caras sempre que lembrava de você. Estranho.

Acho que isso tudo é um jeito do meu corpo dizer que chega, enough is (finally) enough, ponto final. Cada dia do seu silêncio foi feito vacina, e agora sou imune à sua presença, passo batido pelo seu charme, desvio do seu papo. Te mudei de “o” pra “um”, de “ele” pra “aquele”, de taquicardia pra linearidade. Pois é, estranho. Mas sabe o mais estranho de tudo? Já não dói.

Vem pra Ficar

Maria Rita – Feliz

Você veio aquele dia. Como em tantos outros, sua presença me era costumeira. Eram tantas as vezes por que passávamos um pelo outro, com que seguíamos cada um seu caminho, sem nunca cruzar um passo, certo ou trôpego, que fosse. Até o dia em que você veio.

Confesso que tardei a acreditar. Pensei que havia contraído uma dessas doenças novas que entram e saem de moda, do tipo que causa os mais loucos desvarios e afeta as faculdades mentais responsáveis pelas tomadas de decisão. Se bem que me disseram que paixão não é coisa de gente sã, faz a gente delirar mais do que febre de 40ºC. Ah, whatever, que mais me importa agora que você veio?

Se sua intenção era me tirar o sossego, o ar, o fôlego e a força das pernas, parabéns: você não só conseguiu, como consegue toda santa vez que olha na minha direção e deixa escapar aquele seu sorriso com os olhos. Mas, que importa que eu tenha que disfarçar suspiros, braços arrepiados e pernas bambas, se isso é meu corpo comemorando que você veio?

Então, já que a rota se alterou um pouco e sua graça veio encher meu ar, fica. Vem ouvir Beatles comigo, me dar um beijo na chuva, caçar aquele cenário do meu sonho, sussurrar “Come together” ao pé do meu ouvido, me passar sermão quando eu errar, perguntar como foi meu dia, me ensinar a gostar de jazz, fazer comentários ácidos de figuras em comum, me dar um abraço apertado, não sei. Fica, que já te arranjei um canto na minha desordem, aprontei o café e tô te esperando vestindo só aquele perfume de flor de laranjeira. Vem, fica.