O que ficou embaixo do tapete

The Temper Trap – Love Lost

Quando que chegamos ao fim? Que minha cabeça não encaixava mais no seu ombro, que minha cintura e suas mãos mal se conversavam mais, que a gargalhada findou, que o brilho apagou e o amor se perdeu? Você reparou? Ah, é que, bem… Eu não. Ou até reparei, mas emudeci, fingi que não tinha visto nada e insistia em repetir “Pfff, você tá louca, sai dessa”. Pois é, acontece que eu não estava.

Eu lutei contra aquele tal de sexto sentido, a maldita intuição feminina. Se tanto carro tem recall por defeito de fabricação, por que eu não haveria de ter também? Acontece que eu sou sou gente e não máquina, e não fazem recall pras coisas da vida, como não foi feito pra gente.

Bem que tentamos apertar o replay naquela sexta, numa última tentativa de resgatar tudo que veio depois daquele domingo. O frio na barriga, a ansiedade, o rosto ardendo, o beijo, as praças, o olho no olho, o pedido de namoro, as coincidências, as similaridades, a mesma ideia, o mesmo amor. Pena que não foi só isso que veio.

A gente esqueceu dos ritmos diferentes, amor. E também das ausências, dos silêncios, dos temores, das lágrimas, do desencontro, da aspereza, do não suportar, da cobrança, do fardo, da falta, do aperto, do explodir. Ah, como esquecemos…

Mas parece que ainda ontem, lembrei. Lembrei de como (tanto) quis que fosse diferente. Como quis remediar cada vírgula fora do lugar, cada verso que não saiu, mas você preferiu tirar aquele solo na sua guitarra. Lembro de como doeu aquela ausência de olhar, do brilho que costumava piscar pra mim, ouvir “Atrás da Porta” uns dias antes, o áspero dos teus verbos, o duro do teu abraço (ou a falta de). Eu que tanto quis e tanto sonhei, de repente me vi obrigada a não querer nem sonhar mais nada. Chão, cadê você? Tentei ser gente grande, tentei fazer diferente, mas a linha ficou muda. Então a minha resolveu ficar também. E ficou.

Ficou com raiva, ficou com ódio, ficou com grito, ficou com culpa, ficou com dor, ficou com saudade, ficou conformada, fincou o pé na realidade e acordou. Viu que era hora de olhar no espelho, limpar a cara e montar um sorriso. Viu que respirar era bom, que levantar a cabeça não fazia mal a ninguém e que se abraçar de vez em quando não era errado. Viu que nem sempre quem vem em cavalo branco é príncipe, que a gente cresce sem perceber e as coisas deixam de ser o fim do mundo.

Tanto e pouco tempo esperando um “tu tu tu” que fosse. Dar de cara na esquina, na porta de um lugar qualquer, uma única merda de flor barata roubada de um jardim. Mais do que isso, o brilho, a sinceridade, a desculpa, o tudo. E em troca, o nada. Nada it is then, ela pensou.

Mas veio. Veio o tudo, no momento em que o nada gritava. E como falar mais alto do que quem grita? Bem que ela quis que falasse, bem que o som chegou perto, bem que… nada. Bem que nada. Era “injusto”, doía, relutava, definhava, morria. Sabe o que é, é que você foi convincente demais naqueles dias em que tudo rodava, doía, rodava, partia. As palavras funcionaram tão bem, mas tão bem, que foi como se tivessem sido tatuadas aqui dentro.

Ouça-me bem, amor, parafraseando Cartola, porque o mundo é realmente um moinho. Tritura sonhos, ah, tão mesquinho, e reduz ilusões a pó, não nego. Ouça também quando pego emprestada a voz da Maria Rita e te digo para que leve na lembrança a singela melodia que um dia eu fiz pra ti, ó que era bem amado. A carta, os pedaços foram pra debaixo do tapete, mas a tatuagem fica, firme. Por um lado, uma pena, eu sei. Dá revolta, dá aperto, dá saudade, dá vontade, dá medo, dá ansiedade, dá tensão, dá mágoa, dá lágrima. Também quis que fosse diferente. Mas naquela hora de linha muda. Agora, foi aqui que emudeceu.

 

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