Culpa dela (?)

Scala & Kolacny Brothers – Creep

Antes fosse a poluição, cinza e opressiva, que me estivesse causando esse sufocar. Bacia com água no chão do quarto, inalação, viagem pro meio do mato, remédio pro nariz, qualquer porcaria resolveria isso e eu voltaria a respirar. Mas não, isso aqui não é a obra do vizinho, é obra tua.

Isso mesmo, tua. Duvida? Me diz então quem foi que me fez acreditar naquela coisa toda de amor, hein? Quem foi que fez juras de pé junto, ao pé do ouvido e sem samba no pé, pra depois dar nesses mesmos pés?

Mas vai ver não é só tua. Não, não vou te dar todo esse crédito. As minhas ideias delirantes merecem compartilhar esta honra. Meu romantismo, bobo do jeito que é, coitado, também. Não posso esquecer da minha metade vintage. Muito menos da outra, que é old school. Sem contar as indecisões mil, as bizarrices, os silêncios inquietos, as euforias insanas, os fingimentos de samba, os sorrisos de disfarce, as ironias pululantes, os desencontros, as gargalhadas vergonhosas, o choro por dentro, os estilhaços e todo aquele bando de sentimentos se acotovelando por todos os cantos possíveis e imagináveis.

Sei lá, vai ver a culpa é da Clarice, que externou a “saudade do que poderia ter sido e não foi”. Que “achava bom ficar triste. Não desesperada”. Que era “um monte intransponível” no seu próprio caminho. Para quem o mundo parecia “uma coisa vasta demais e sem síntese possível”. Que “queria escrever luxuoso. Usar palavras que rebrilhassem molhadas e fossem peregrinas. Às vezes solenes em púrpura, às vezes abismais esmeraldas, às vezes leves na mais fina seda macia”. Que também queria se “levantar forte e pronta, como um cavalo novo” depois de toda luta e cada descanso. A quem também era inútil querer classificar, porque simplesmente escapulava não deixando – “gênero não me pega mais”. Que também não queria “ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido”, mas sim “uma verdade inventada”. E que também supunha que ser entendida não era “uma questão de inteligência, e sim de sentir”…

É Clarice, da culpa eu já não sei. Mas a cura é toda sua.

Anúncios

Uma opinião sobre “Culpa dela (?)

  1. Pingback: Culpa dela (?) « Blog Vale | Blogosfera do Vale do Paraíba

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s