Alô, destino?

Hellogoodbye – When We First Met

Me admira a coragem daqueles que enchem a boca para sentenciar sua total falta de crença em Destino. Riem debochados da ingenuidade dos que se arriscam a, timidamente, com voz falhada e cabisbaixos, admitir que acreditam ah, você sabe, um pouco né, nunca se sabe, essa coisa toda de força cósmica, poeira de estrela, a reviravolta do Timão e tal… Mas peço licença, poética ou não, para igualmente encher a minha boca de acasos, O de lá de cima, sorrisos, descobertas, batimentos acelerados, frios na barriga, conversas cibernéticas, rubores, aquelas pitadas estratégicas de bossa nova, tristeza e água amarga, arrematando com abraços furtivos e perfumes mil, e sentenciar: eu acredito sim.

Calma, não precisa desse auê todo, fala baixinho, pode até sussurrar que eu escuto bem. Deixa eu te contar porque acredito e você vai se ver obrigado, bem a contragosto que eu sei, a acreditar também. Ou então não, só vai terminar de atestar que aqui reside uma ingênua-vintage-perigosamente romântica-old school-com-algumas-engrenagens-em-falta incurável, incapaz de aprender uma coisa de útil que seja com todos os porres de Merthiolate e Band-Aid que tomou na vida. A casa é sua.

O fato é que, depois de todos os desencontros (que mais tarde fui entender e não pude segurar uma ventania de alívio), fica difícil sair assoviando fingindo que não é comigo. Fica difícil passar batido quando tem alguém gritando seu nome e apontando praquilo de que você, ufa, escapou por pouco, mesmo não querendo escapar. Pior: fica mais difícil ainda quando é o seu sorriso largo, fácil, meio que convidando pra um abraço, pra um dois-pra-lá-dois-pra-cá devagarinho, de rosto colado, que tá em jogo.

Depois de todo esse patchwork meio monótono, de cores meio apagadas, que andei tecendo no meu coração, aparece o seu retalho tímido de pano vermelho vivo, disposto a cobrir qualquer pedaço descoberto que estiver dando sopa. Dos seus lábios, nada de promessa, frase pronta ou malícia: só sorrisos de dentes perfeitos, aqueles biquinhos, notas musicais (também conhecidas como falas, ou palavras) e aquela sensação de que Newton enganou todo mundo muito bem, porque, pelo menos daqui, a gravidade passou longe.

Eu sei, não faz nem uma gestação que paramos lado a lado pela primeira (e única) vez. Ok, sei também que não sei quase nada das tuas manias ou você das (muitas) minhas. Tá bom vai, eu não faço ideia de quando e como foi seu primeiro beijo, se você odeia arrumar mala de viagem tanto quanto eu, se prefere chocolate branco ou preto, que shampoo usa, se também se sente sufocado quando dorme com o pé coberto ou se um dia vai dar a volta olímpica com seu retalhinho vermelho ao redor dessa coisa que, teimosa que é, continua pulsando, pulsando, pulsando…

Só sei que você apareceu aquele dia e, na mesma hora, o sossego saiu escondido pela janela. Danado ele, só voltou (meio trôpego e doido por sossego depois da gandaia) quando a minha foto trombou com a sua assim, meio que sem querer, muito que querendo. Sei que um curso de hipnose deve fazer parte do seu currículo, logo abaixo da experiência na área de produção de sorrisos e um pouco acima da especialização em tocar um pouco de cada instrumento que rege a minha melodia.

Como Clarice, também tenho medo do novo e de viver o que não entendo. Também quero a garantia de pelo menos estar pensando que entendo. Mas me rendo ao Cazuza, com seu desejo da sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida. Ao sentir que me perde aos poucos para os versos do poeta, vem sussurrar ao pé do meu ouvido pra que me renda. Sim, como ela se rendeu. E mergulhe. Mergulhe naquilo que não conheço, sem me preocupar, porque viver ultrapassa qualquer entendimento.

Já ouvi Cazuza, já senti Clarice, dei corda na fanfarra do meu peito, escutei a bossa das memórias daquele pôr do sol e a Takai me mandou cantar “Por Perto” (‘E de forma decente, por favor’, foi o que ela pediu). Agora resta descobrir o que a sua melodia, que consegue ser mais doce que todas as flautas que ouvi até hoje, vai querer cantar pra mim.

Anúncios

3 opiniões sobre “Alô, destino?

  1. Pingback: Tweets that mention Alô, destino? | Culpa da Clarice -- Topsy.com

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s