Parênteses

Jónsi – Animal Arithmetic

Hoje decidi deixar abaixar o volume do meu poeta. Xiu, sossega um pouco, sem fazer beicinho vai. Seja um bom menino, vai deitar um tiquinho e me deixa sentir esse vento na cara, essa brisa no peito.

Resolvi dar de difícil e resisti ao charme da tristeza. Empinei o nariz e passei batido pelos versos de aperto que acenavam, convidativos, para mim. Tapei os ouvidos do coração feito criança quando as melodias vieram, chorosas e sedutoras como só elas sabem ser. Hoje tirei os sapatos e fui dar uma volta descalça no gramado da liberdade.

Não, não há fato, argumento, prova ou 1 + 1 = 2 por trás disso. Nada específico, nada racional, nada de cálculo, nada de plano, nada de nada: só tudo de mim. A vida na voltagem máxima, com contraste, brilho e controle de vermelho completamente desregulados, fazendo tudo parecer mais orgânico. É mesmo ela, e é bonita e é bonita.

Hoje, o ar entra e cumprimenta cada célula, cada brônquio, cada molécula dessa imensidão pequena que vos fala, deslumbrada. Hoje, recebi em cada bochecha um beijo gostoso de vó do sol que não saiu. Hoje, a lua veio em pessoa me trazer uma serenata de violão, vagalume, noite de verão, mar e flor de laranjeira. Hoje, justo hoje, não podia esperar até amanhã, resolvi soltar a algema da vergonha e brincar feito criança, gritar até perder o fôlego (e a voz), saltar de paraquedas, plantar uma árvore, distribuir sorriso, dançar um bolero, andar sem rumo, usar roupa velha (portanto confortável). Hoje, resolvi viver sem o freio de mão, ainda que no meu silêncio, que também é parte da respiração contínua do mundo. 

E como não podia deixar de ser, olho para Clarice, serena ao meu lado, sobrenatural como disse ser a vida, me trazendo sempre o sussurro certo na ponta da língua ferina, certeira, doce, faceira:

“Liberdade é pouco. O que desejamos ainda não tem nome, menina. Este é nosso trabalho, viver nossos prazeres e nossas dores. É necessário que tenhamos a modéstia de viver, ainda que seja de esboços não acabados e vacilantes, latejando no tique-taque do relógio”.

Hoje acordei. Ou fui acordada, não sei. E tampouco importa. Tal qual Cecília agora, só sei que vivo. E mais nada.

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4 opiniões sobre “Parênteses

  1. não sei o que te dizer … o q te completa é voce! o q te embala as palavras é vc! tudo o q estou sendo nesse momento, é voce!
    se eu tivesse algo pra te pedir, depois de te ler, seria pra ser vc ou ter vc. (reticências).
    ficamos assim então. sem mais.
    pra voce.*

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  2. Pingback: Tweets that mention Parênteses | Culpa da Clarice -- Topsy.com

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