Memorial de ausências

The Swell Season – The Moon

Lembro-me dos tempos áureos da infância, bordada de presença, pintada de carinho, com lantejoulas de gargalhadas, cristais de desapego e cheiro de casa de vó. Ah, eu lembro…

Lembro como meu pai era um herói, alto, sempre com todas as respostas nas pontas de um sorriso. Como minha mãe era linda e sabia cantar todas as músicas em inglês do rádio, e como eu a admirava por isso e queria fazer igual quando crescesse.

Lembro como minha avó contava 57 vezes a mesma história na hora que o cansaço vencia minha ânsia de ser criança, e como eu saboreava cada palavra de cada cena: a água pura, o perfume das rosas, margaridas, crisântemos, o frescor das frutas, o brilho do anjo, o ceu azul.

Lembro do cheiro do meu avô, vaidoso como ele só. O Trim seu de cada dia, as peripécias culinárias, os disquinhos coloridos do Silvio Santos, o sangue italiano, as tardes de programas popularescos na TV.

Lembro da liberdade do ar puro do interior, das brincadeiras de rua, da comida colorida, do cheiro de terra, da sombra da árvore, da fruta do pé. Lembro da bisa, italianinha de jeitinho doce e cheiro de talco, e do biso, o único italianão sério que conseguia vestir terno no Saara.

Acima de tudo, lembro da solidez das coisas e pessoas. Lembro da certeza em tê-las sempre a meu lado, da segurança nas mãos que me conduziam e o carinho crescente nos olhos que me observavam. Então eu, teimosa, dei de crescer.

Coisa irônica esse tal de crescer. Tudo pode, tudo é proibido, tudo encanta, tudo fere. Porque esse, ainda fui ser Y, porque X, Baby Boomer, Alfa, Pi ou o escambau não seriam suficientes. Mas até parece que eu pararia por aí também: resolvi que uma letra não me definiria, por isso fui ser todas as siglas e nenhuma delas. Sou eu, esse conjunto de retratos de um colorido desbotado e esse memorial de ausências em formação.

Sim, porque uma das pedras no meio do caminho do Drummond e de todo mundo que respira são as ausências que vamos catalogando em nosso acervo pessoal com o passar dos anos, cada qual com seu tempero: uns mais amargos pelo fel da mentira, outros mais salgados pelo aperto da saudade.

Já não tenho mais cheiro de Trim e bigode queimado de cigarro. Nem o rádio fica mais ligado na Rádio Globo AM passando o horóscopo do dia. Acabou-se a graça em dizer “Madona mia”, porque não tem mais a companhia de um risinho dourado tímido e bater de palmas. E no Saara paulista, agora só entra bermuda e regata.

Ganhei algumas promessas mambembes, que se desfizeram diante da primeira amostra grátis de um conselho qualquer. Ganhei brilhos de diamante em olhos, que, ao menor sinal de uma tempestade, derreteram feito crital de açúcar. Conquistei títulos de confidente, melhor amiga, única, diferente, metade, alma gêmea, versão feminina, melhor abraço, melhor beijo, mulher da minha vida e toda sorte desse vocabulário, só para, no fim, perder por W.O. do amor e me tornar mais um rosto oco no meio da multidão, sem química ou história bonita pra contar. Não tenho cheiro pra guardar na memória, sorriso pra enfeitar a estante, mão pra abrir espaço na multidão ou abraço pra curar o dia. Só um apanhado de partidas prematuras que, se postas a leilão, sabe-se lá que poucos trocados de sentimento renderiam.

Pois é Fernanda, como você pode ver, também não tem nenhum trofeu aqui das brigas que ganhei. Só este memorial de ausências, as brigas que perdi, crescendo nos cantos de cada pedaço de mim, com estantes indecifráveis e lembranças enigmáticas desta minha existência.

Fica aqui, então, o adeus: me despeço de cada um com beijo temperado por lágrima (ora doce, ora amarga), um abraço com carga extra de nostalgia e Clarice, meu sopro de sabedoria ao pé do ouvido, me encorajando a fazer com

que minha solidão me sirva de companhia. Que eu tenha a coragem de me enfrentar. Que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.

E que assim seja, meu eterno mistério telepático.

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Uma opinião sobre “Memorial de ausências

  1. Voce nos põe a sentir cada pedrinha descrita (é, tinha uma ali, eu vi), cada cheiro, cada rua e visão da sua infancia. Q colorido, cujo cinza q vem depois, parece ter mais cor.
    Tivesse eu um sonho agora, nesse momento, pronto pra se realizar, eu to daria. Em troca de teu sorriso e dessas sublimes, quietas e desesperadas palavras com q nos põe pensativos e reflexivos.

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