Da verdade e seu nariz

Kate Nash – Nicest Thing

Se via como que dividida em mil espelhos, cada qual carregando sua peculiaridade, sua essência, seu vício, sua risada, seu mistério, seu defeito. Chamou-se, então, multifacetada, ainda que a face fosse uma só, a mesma para cada um desses seus estilhaços, para cada uma de suas fases, fosse minguante, fosse cheia, fosse o que fosse. Autêntica lhe parecia um jeito bom de se chamar. Melhor, franca. Tradução literal: tola.

Mas disso ela só foi se dar conta com o passar dos anos, dos casos, dos fatos, das pessoas, dos gostos, dos dissabores e tudo mais passível de sofrer as ações do tempo. Sim, porque, aparentemente, dizer a verdade equivale a atestar insanidade. Ou encomendar um pacote de olhares de compaixão para com sua clara desvantagem mental.

A incidência de sintomas como coração encapsulado, fita do Bonfim na garganta, olhos flamejantes e nariz à Ferrari, fez com que se desse conta do padrão que regia esta sinfonia: sempre após o momento em que as resistências partiam em férias para o Uzbequistão e o coração abria alas só pra que a verdade, morena e faceira, pudesse passar e tomar conta do recinto.

As interrogações, então, brotavam, explodiam, fervilhavam por dentro, escapando-lhe, vez ou outra, aos olhos:  ‘A verdade virou o pecado capital dos relacionamentos? Ou os relacionamentos viraram o pecado capital da verdade? Aliás, o pecado não seria chamá-los de relacionamentos, quando eram da intensidade de uma pluma?’. E permaneciam as divagações, caleidoscópicas, ininterruptas, inquietas.

Quando conquistou um minuto de sossego, acabara de descobrir mais um de seus lados: boba da corte. Sim, palhaça, arlequim e qual mais vier a servir ao propósito de demonstrar sua tolice, seu nariz vermelho, seu chapeu de guizos.

Ao dizer a verdade, queria apenas ser sua garota favorita, com seu sorriso, seu estilo, seu formato, seu conjunto. Ter sua mão segura quando triste, sua imagem de quando se encontraram pela primeira vez guardada para sempre num porta-retrato da memória. Ser a imagem que permanece em seus olhos sempre que se fechassem na companhia de um sorriso, seu mistério a desvendar, sua razão de estar no mundo. E que sem ela, seu coração partisse, as noites não tivessem rumo, a comida perdesse o sabor. Só queria que tentassem ser algo tempo suficiente para poderem contar sua história com sorriso, com saudade, com brilho. Só queria parar de colecionar estranhos conhecidos e embaraços. Não precisava de fábulas, roteiros de filme ou crônicas apaixonadas: a verdade, mesmo que não tão bela ou cinematográfica, lhe bastava.

Não entendia o resultado incompatível quando havia lógica na equação: os elementos corretos, os expoentes de mistério, os diferenciais únicos, as peculiaridades de risinhos abafados. Paciente como só ela, sutil como mais ninguém, Clarice lhe chega novamente, numa brisa de sussurrar:

“Não se pode fazer do amor um cálculo matemático errado como eu fazia, minha querida. Também pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. Mas não é!  E é isso que nos inspira, nos entorpece, nos move, nos enlouquece, nos faz viver.” 

Suspirou e resolveu, por fim, esperar. Isto não significava que os contornos de cor branca e vermelha em sua face seriam esquecidos num canto, pelo menos não agora, mas que tentaria manter a cara limpa por mais tempo, sem lavá-la de lágrimas por alguém que se tornaria, muito em breve, um outro ninguém. Esperaria o algoritmo que completaria sua equação, nem sempre intrigante, compreensível ou passível de sentido, mas certamente, daquele dia em diante, sua favorita.

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2 opiniões sobre “Da verdade e seu nariz

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