Manhã da Noite

Glee Cast – Dont Rain On My Parade

Era mais um daqueles dias. Aqueles, sabe?, em que se acorda, respira, pisca o olho, anda e, às vezes, torna-se necessário forjar um sorriso entre um papo e outro. Um dia igual a outros tantos 364. Só que diferente.

Decidiu que já tinha passado da hora de acordar. Não igual faz às 6 da manhã dos dias úteis (e dos nem tanto também), mas de uma forma que nunca se atreveu em seus 20 e tantos trocados de existência. Prendeu o cabelo desajeitada, lavou o rosto, encheu o peito de ar e se esquadrinhou num abraço. É nisso que dá ignorar por tanto tempo os apelos do despertador da vida: o modo soneca fica perigosamente ativado por bem mais do que os tradicionais 5 minutos e, quando finalmente decidimos por nos espreguiçar, são grandes as chances de estarmos anos atrasados pra começar a viver.

Cansou de ficar desejando ser especial pra fulano, cicrano e sua trupe de anônimos. Cansou do nariz quase tocando o chão. Cansou de entreter com seu espírito levemente bobo, secretamente romântico e perigosamente sincero. Cansou de recolher migalhas e tentar se satisfazer com elas, quando sabia querer o pão inteiro. Cansou de perder o chão, o teto, o Norte, o Sudoeste e qualquer outro indicador de direção ou solidez. Cansou de abraços vazios, de beijos ocos, de palavras de areia e castelos de cartas. Cansou da inércia, do torpor, do peso, da ausência, do desvio, da dúvida, do anseio, de prender a respiração, de partir, da dor, da despedida, do vazio, da indiferença.

Viu que era hora, então, de um pouco de cor. E um pouco de sol, de brisa, de sensação, de arrepio, de frio na barriga, de beijo roubado, de gargalhada, de grama, de mar, de passos, de subidas, de suor, de palmas, de esforço, de apreço, de brilho. Aliás, pouco? Que pouco que nada! “Mandem doses cavalares! Quero é pecar pelo exagero!”, bradava, querendo alcançar o mundo do alto não de seus poucos metros de ser, mas de seus quilômetros de alma, de sentimento, de espírito, de paixão, de mistério, de inconstância, de verdade, de música, de palavras, de si própria.

Porque, no fim das contas, era isso isso que estava fazendo: acordando para si própria. Bom dia, Amor Próprio. Pra você também, Paz de Espírito. Claro que não me esqueceria de vocês, Calma e Equilíbrio. Bom dia, Mundo. Bom dia, Deus. Bom dia, Ar. Bom dia, Vida. Bom dia vocês, bom dia!

Só assim pôde reconhecer o que sempre soube escondido: que, tal qual Clarice, era caleidoscópica; fascinavam-lhe suas mutações faiscantes que em todo lugar caleidoscopicamente registrava. Sabia que aceitar-se plenamente era uma violentação de sua vida, pois cada mudança, cada projeto novo causava espanto: seu coração estava espantado. E justamente por isso que toda palavra sua tem um coração onde circula sangue.

Enquanto ofegava, ávida que estava por viver seu infinito particular, ora desbotado, ora berrante, ora certo, ora errante, Clarice, leve e elegante como ninguém, intensa como só ela, como que pousa a seu lado, mistério puro, e declama conselhos em forma da mais doce, intensa, amarga, apaixonada, louca, pura, verdadeira, crua melodia:

Ah, menina, respeite mesmo o que é ruim em você; respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você. Não copie uma pessoa ideal, copie a si mesma, pois é esse seu único meio de viver. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Quem olha um espelho, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade consiste em ele ser vazio… esse alguém percebeu o seu mistério de coisa. Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar nossas fraquezas. Sou o que quero ser, porque possuo apenas uma vida e nela só tenho uma chance de fazer o que quero. Tenho felicidade o bastante para fazê-la doce, dificuldades para fazê-la forte, tristeza para fazê-la humana e esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas: elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. Que assim seja então, menina: faça sua vida, sua verdade inventada, se reinvente! Faça o melhor dos obstáculos de seu caminho e seja feliz! Vai menina, vai depressa ser feliz que você não pode perder um minuto mais do tempo que faz sua vida!

Como que num passe da mágica de Clarice, sorriu como não fazia há tempos, levantou-se de súbito, deixou o rascunho de um beijo na face daquela presença e disparou a correr. É que estava mais do que atrasada para seu encontro com a vida, não podia se dar ao luxo de fazê-la esperar mais.

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3 opiniões sobre “Manhã da Noite

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