Então vem

 Adele – Best For Last

Confesso que te notei há tempos. Me chamou a atenção de cara, não deu pra passar batido, empinar o nariz e fingir que não era em mim que sua presença tinha produzido efeito. “Pronto”, pensei, já emendando o revirar mal-humorado de olhos, “com tanta gente solta nesse mundo e você tinha que cismar com ele, que parece andar bem preso, obrigado”.

Sendo bem honesta, sei quase menos que nada de você. Se me perguntarem qual seu maior medo, se já quebrou o braço, com quantos anos deu o primeiro beijo, se gosta de chupar gelo no verão ou a hora em que sua mãe te trouxe ao mundo, vou olhar pra baixo e chutar pedras imaginárias pra bem longe.

Torço mais do que aquele bando de loucos para que não me perguntem o nome da escola que você frequentou, o número do seu sapato, o tanto da sua altura, se suspense ou sci-fi ou se já beijou na chuva, porque eu não vou fazer a mínima ideia. Então vai ser a vez de reviver meus anos de teatro e mostrar a cara mais lavada e blasé de que for capaz, só pra esconder meu embaraço por não saber nada disso.

E que não me venham perguntar se já sofreu perdas irreparáveis, se algum dia dormiu chorando todas as lágrimas que tinha em estoque, se já sentiu o coração como que embalado a vácuo ou uma dor tão grande que remédio nenhum era capaz de fazer sumir, só uma certa presença. Não, por favor, esqueçam de mim nesse momento.

Sou capaz até de considerar a hipótese de fazer promessa pra todos os santos que estiverem de plantão, só pra que não me despertem o mais ínfimo resquício de pensamento de ver você sofrendo e eu sem poder colocar sua cabeça no meu colo, entrelaçando meus dedos no seu cabelo e tentando ser forte, ao invés de desmoronar como o Alex em ‘505’.

Na verdade, vou avaliar bem a possibilidade dos santos pra não pensar em você de jeito nenhum, seja abrindo seu sorriso mais lindo ao me ver, sério depois de uma discussão, cansado do trabalho, revirando os olhos naqueles meus dias de draminhas tolos, rindo dos meus acessos súbitos de rebeldia revolucionária, tomando minha mão pra mostrar que não vai escapar nunca, olhando fundo no meu olho e despindo cada milímetro da minha alma, ou descobrindo comigo como o mundo pode ser mais bonito com umas cores a mais, um toque vintage e uma pitadinha de ironia de vez em quando, temperado com beijos na chuva, abraços que encaixam e cheiro de pele que combina.

Mas aqui ó, me conhecendo bem, ainda vai ficar aquela fagulha de vontade que você resolva deixar o melhor pro final e venha mudar meu mundo e o seu, aceitando o desafio de colocar em ordem esse coração que anda meio maltrapilho sim, mas ainda lembra da melodia dos batimentos por alguém.

Anúncios

2 opiniões sobre “Então vem

  1. Pingback: Então vem « Blog Vale | Blogosfera do Vale do Paraíba

  2. Você é assim…..uma caixinha de surpresas…bem ao estilo Clarice…qdo a gente pede brisa, vem a ventania….quando a gente pede tempestade…aí vem a corrente de ar mais suave q se possa imaginar…
    É….vc é assim….e é por isso que eu te …..ah…melhor deixar pra lá…

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s